26 Dez. 2018

Notícias

O Treino na Gravidez

O treino na gravidez está envolto de um grande nível de desconhecimento, muito devido ao estado “frágil” em que as mulheres se encontram nessa fase não sendo ético fazer estudos científicos nos quais haja a remota possibilidade de criar malefício para a mulher, como para o feto.


No entanto, está documentado que as mulheres grávidas procuram, nesta fase, mudar estilos de vida e criar hábitos mais saudáveis para que consigam aumentar a probabilidade de um parto saudável e sem problemas. Entre outros hábitos, o exercício é considerado como um possível beneficiador de saúde para a grávida – já que, claramente e sem margem de dúvida, o é para a população geral.


Assim, podemos perguntar: É o exercício físico perigoso para a grávida? Traz o exercício físico benefício para a grávida e para o seu feto? Que tipo de exercício físico deve ser realizado? Com que intensidade? Quais as particularidades? Quando começar? Devo levar o exercício até ao termo da gravidez?


Na verdade estas questões têm sido alvo de muitas tentativas de estudo, infelizmente, na maior parte das vezes resultando em artigos de qualidade inferior. Dessa maneira, os resultados acabam por ser algo díspares no que toca ao seu benefício mas na sua grande parte conclui-se que o exercício não acarreta nenhum perigo para a grávida ou para o seu feto.


Alguns dos estudos mostram até benefícios em vários parâmetros mentais e fisiológicos da grávida, assim como medidores de outcome peri-natais do feto. Com a iniciação ou a manutenção de um plano de exercício observou-se a melhor saúde mental da grávida, diminuição do número de depressões pós-natais, diminuição do aumento do peso, diminuição do nível glicémico em jejum e por conseguinte da probabilidade da diabetes gestacional, diminuição da probabilidade de nascimento pré-termo, diminuição dos partos por cesariana, uma normalização do peso de nascimento do bebé e uma percepção geral mais positiva sobre todo o processo de gravidez e parto por parte da mãe.


Apesar disso algumas considerações devem ser levadas em conta: a intensidade e o tipo de exercício. Em primeiro está a segurança e como tal qualquer tipo de exercício que aumente a probabilidade de trauma ou queda deve ser evitado para diminuir a probabilidade de acidentes na zona abdominal. A maior parte das vezes é o exercício aeróbio a ser aconselhado, não obstante, a evidência mostra uma maior eficácia quando treino de força é integrado no plano. Há resultados positivos desde das sensações de fadiga até à diminuição da prevalência das dores lombares e pélvicas sentidas em grande escala durante a gravidez. Acredita-se que as dores lombo-pélvicas tenham origem nas alterações de peso, no aumento de laxidez ligamentar devido às alterações hormonais e devido a um aumento da lordose lombar – o treino visa criar resiliência a todas estes factores que se acreditam ser os provocadores de sintomatologia.


Também a intensidade é um parâmetro muito estudado, mas, não há grande consenso na comunidade científica. A maior parte das guidelines aconselham o exercício de intensidade moderada – aliando a segurança com uma intensidade que permita sobrecarga e assim uma melhoria das capacidades física. Apesar disso, os exercícios de intensidade alta não se mostraram como factor de predisposição de complicações. Alguns estudos, apesar de não ser correcto fazer uma extrapolação destas conclusões, mostram que é o volume de trabalho elevado que pode levar a possíveis complicações – eventos hipoglicémicos – e que seria até mais seguro realizar exercícios com maior intensidade e menor volume. Apesar destas conclusões, neste estudo não ocorreu qualquer evento hipoglicémico pelo que o maior perigo foi considerado devido a uma maior diminuição das concentrações de glicose no sangue.


No entanto, se a grávida for uma atleta ou alguém que previamente já treinava com alguma intensidade não estão descritas grandes problemas de segurança de continuar o plano com volume e intensidade similar.


Várias ferramentas podem ser utilizadas para controlar a intensidade do treino como é o caso da percentagem de frequência cardíaca máxima, o Rate Perceived Exertion (RPE) – a percepção de fadiga no exercício, o “talk test” e outras. É consistente a sugestão da monitorização da carga e intensidade no treino da grávida.


Alguns do benefícios do exercício acredita-se ser a diminuição da glicose no sangue, prevenindo a diabetes gestacional mas podendo também ajudar a gerir esta condição quando presente. O mecanismo pela qual o exercício pode ajudar nesta condição é a mesma que na população normal – a degradação aguda do substrato e o aumento da sensibilidade da insulina duma maneira crónica. Atenção deve ser tomada devido à tendência para um estado hipoglicémico das grávidas sem complicações devido a diminuição do armazenamento de glicose hepático.


O parto prematuro está correlacionado com morbilidade e mortalidade, assim como é o caso do baixo peso de nascimento. O contrário, o parto após as 42 semanas de gestação e o peso acima do recomendado, acabam por ter uma correlação com morbilidade similar. Também os partos por cesariana estão associados a maior complicações, maior tempo de recuperação pós parto e de alterações de função génito-urinária. O exercício pareceu ser benéfico nestes 3 factores: tempo de parto, peso do bebé e tipo de parto. 


A implantação de um plano de exercício diminui a probabilidade significativamente do parto acontecer pré-termo, mas é preciso atenção pois também foi observado em alguns estudos um ligeiro aumento da probabilidade de nascimentos após as 42 semanas. No entanto, o exercício parece ser uma boa metodologia para provocar um peso de nascimento dentro das guidelines e diminuindo a probabilidade de parto por cesariana podemos assumir que a recuperação será mais célere e com menos probabilidade de complicações.


O exercício é seguro durante toda a gravidez, apesar de os estudos mostrarem-se mais cautelosos durante o primeiro e o último trimestre – apesar de não haver grande conclusões científicas práticas sobre o perigo acrescentado do exercício nestes períodos. A vontade e a percepção de bem-estar da grávida deve ser o que define, principalmente, a cessação do exercício antes do parto – havendo muitas mulheres incluídas nestes estudos que fizeram exercício (de alta intensidade) até ao dia anterior ao parto. Durante o primeiro trimestre sugere-se maior cuidado com o estados de hipertermia (apesar das temperaturas consideradas nocivas serem praticamente impossíveis de alcançar com o treino) e após este período exercícios na posição de supino devem ser evitados por probabilidade de hipóxia do feto – o aumento do volume do útero, na posição de supino, pode provocar um bloqueio arterial.


Rematando, apesar de não haver um grande consenso sobre guidelines de treino mais benéficas para as grávidas é bastante aceite que o exercício não é perigoso para esta população. Além disso, benefícios foram encontrados em parâmetros fisiológicos e mentais da grávida assim como medidores do feto durante o seu nascimento – que poderão influenciar o seu bem-estar e saúde na sua vida adulta. No entanto devemos ter alguns cuidados, como é o caso da monitorização do volume e intensidade de treino, algumas posições e outras particularidades.


Não deixe a sua saúde nas mãos de qualquer um, procure especialistas e na FISIOGlobal somos especialistas por si.


Alex Sakadjian, Derek Panchuk, & Alan J. Pearce. (2014). Kinematic and Kinetic Improvements  Associated With Action Observation Facilitated Learning Of The Power Clean in Australian Footballers. Journal of Strength and Conditioning Research, 28(6), 1613–1625.
Barakat, R., Lucia, A., & Ruiz, J. R. (2009). Resistance exercise training during pregnancy and newborn’s birth size: a randomised controlled trial. International Journal Of Obesity, 33, 1048.
Bisson, M., Alméras, N., Dufresne, S., Robitaille, J., Rhéaume, C., Bujold, E., … Marc, I. (2015). A 12-Week Exercise Program for Pregnant Women with Obesity to Improve Physical Activity Levels: An Open Randomised Preliminary Study (Vol. 10). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0137742
Evenson, K. R., Barakat, R., Brown, W. J., Dargent-Molina, P., Haruna, M., Mikkelsen, E. M., … Yeo, S. (2013). Guidelines for Physical Activity During Pregnancy: Comparisons From Around the World. American Journal of Lifestyle Medicine, 8(2), 102–121. https://doi.org/10.1177/1559827613498204
Lima, F. R., & Oliveira, N. (2005). Gravidez e exercício. Revista Brasileira de Reumatologia, 45(3), 188–190.
Mørkved, S., Åsmund Salvesen, K., Schei, B., Lydersen, S., & Bø, K. (2007). Does group training during pregnancy prevent lumbopelvic pain? A randomized clinical trial. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, 86(3), 276–282. https://doi.org/10.1080/00016340601089651
Nascimento, S. L., Surita, F. G., & Cecatti, J. G. (2012). Physical exercise during pregnancy:  a systematic review. Current Opinion in Obstetrics and Gynecology, 24(6). Obtido de https://journals.lww.com/co-obgyn/Fulltext/2012/12000/Physical_exercise_during_pregnancy___a_systematic.6.aspx
Owe, K. M., Nystad, W., Skjaerven, R., Stigum, H., & Bø, K. (2012). Exercise during pregnancy and the gestational age distribution: a cohort study. Medicine and Science in Sports and Exercise, 44(6), 1067–1074. https://doi.org/10.1249/mss.0b013e3182442fc9
Ozdemir, S., Bebi?, H., Ortabag, T., & Acikel, C. (2015). Evaluation of the efficacy of an exercise program for pregnant women with low back and pelvic pain: A prospective randomized controlled trial (Vol. 71). https://doi.org/10.1111/jan.12659